domingo, 27 de janeiro de 2008

Somos autistas

Somos autistas, quando deixamos de cumprimentar o vizinho, por comodismo, preguiça ou indiferença. Somos autistas, quando destratamos o porteiro, porque empregado não merece consideração. Somos autistas, quando ligamos o som ao máximo, de preferência à meia-noite, porque nos lixamos se o outro necessita de paz. Somos autistas, ao jogarmos lixo nas ruas, porque rua é casa dos outros, e o que não é não é nosso, não nos importa. Somos autistas, quando não ligamos para os pais, porque ficaram velhos, e lugar de velho é no esquecimento. Somos autistas, quando roubamos da prefeitura, porque dinheiro público é de todo mundo, e o que é de todo mundo não é ninguém. Somos autistas, quando nos esquecemos dos professores, ainda que eles nunca se esqueçam de nós. Somos autistas, quando desprezamos as crianças, que, por sua vez, um dia nos desprezarão também. Somos autistas, quando impomos nossa vontade ao cônjuge, sem lhe perguntar se isso é o que quer também. Somos autistas, quando nos tornamos surdos ao clamor da população, porque seus gritos ferem nossa falsa paz. Somos autistas, quando somos policiais, mas somos bandidos também, e depois de um tempo, já nem sabemos mais quem somos. Somos autistas, quando pagamos ao médico o salário da indignidade, e exigimos, em troca, um tratamento condigno. Somos todos autistas, aqui nesse nosso Brasil, paraplégicos da alma, e além do mais, cegos, surdos e mudos, pois na ação ou na omissão, ninguém ouve, ninguém vê, ninguém fala...

Irene Berlin

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