domingo, 27 de janeiro de 2008

Alguém Decidiu

Alguém Decidiu...

No dia 25 de janeiro, à meia-noite, alguém decidiu que a Rua Dias da Rocha não tinha o direito de dormir. Alguém, que promoveu uma festa de arromba, alguém que berrava ao microfone, alguém decidiu que não tínhamos direitos. Que os trabalhadores, que acordariam de madrugada, trabalhariam totalmente esgotados. Que as crianças, que necessitam de repouso, enlouqueceriam ao som que mata. Que os idosos, que precisam de respeito, seriam tripudiados. Que os doentes, que precisam de cuidado, seriam massacrados. E que ninguém mais existia, porque o mundo inteiro lhe pertencia. Alguém decidiu que o microfone era um fuzil, e a caixa de som uma metralhadora. Alguém decidiu impor sua vontade, seqüestrar a nossa paz, matar nosso sossego. Alguém decidiu nos impor o próprio inferno. Alguém decidiu que só seria feliz com a infelicidade alheia. Alguém decidiu violar a lei e tornar-se a própria lei. Alguém decidiu, dia 25 de janeiro, à meia noite, e ninguém se opôs, ninguém divergiu, ninguém se insurgiu...
We Are Autistic

We are autistic, when we fail to greet our neighbors, because we are selfish, indifferent or lazy. We are autistic, when we mistreat our doorman, because employees do not deserve our consideration. We are autistic, when we turn on the sound, as high as the twin towers, because we don’t care if it will kill the neighbors’ peace. We are autistic, when we throw garbage on the street, because the street belongs to everybody, and their business is not our business. We are autistic, when we don’t call our parents, because they became old, and their place is the house of oblivion. We are autistic, when we steal from the town’s government, because public money belongs to everybody, and everybody is nobody. We are autistic, when we forget our teachers, even though they will never forget us. We are autistic, when we despise our children, who, in turn, will, someday, despise us too. We are autistic, when we impose our will on our spouses, as we place a saddle on our horses. We are autistic, when we become deaf to the population, because their outcry threatens our fictitious peace. We are autistic, when we pretend to be policemen, but act like bandits, and, after a while, we no longer know who we really are. We are autistic, when we pay our doctors the salary of indignity, but demand, in return, a five-star treatment. We are all autistic, here in Brazil, paraplegic of the soul, and, moreover, blind, deaf and mute, since, in action or in omission, nobody hears, nobody sees, nobody speaks…
Somos autistas

Somos autistas, quando deixamos de cumprimentar o vizinho, por comodismo, preguiça ou indiferença. Somos autistas, quando destratamos o porteiro, porque empregado não merece consideração. Somos autistas, quando ligamos o som ao máximo, de preferência à meia-noite, porque nos lixamos se o outro necessita de paz. Somos autistas, ao jogarmos lixo nas ruas, porque rua é casa dos outros, e o que não é não é nosso, não nos importa. Somos autistas, quando não ligamos para os pais, porque ficaram velhos, e lugar de velho é no esquecimento. Somos autistas, quando roubamos da prefeitura, porque dinheiro público é de todo mundo, e o que é de todo mundo não é ninguém. Somos autistas, quando nos esquecemos dos professores, ainda que eles nunca se esqueçam de nós. Somos autistas, quando desprezamos as crianças, que, por sua vez, um dia nos desprezarão também. Somos autistas, quando impomos nossa vontade ao cônjuge, sem lhe perguntar se isso é o que quer também. Somos autistas, quando nos tornamos surdos ao clamor da população, porque seus gritos ferem nossa falsa paz. Somos autistas, quando somos policiais, mas somos bandidos também, e depois de um tempo, já nem sabemos mais quem somos. Somos autistas, quando pagamos ao médico o salário da indignidade, e exigimos, em troca, um tratamento condigno. Somos todos autistas, aqui nesse nosso Brasil, paraplégicos da alma, e além do mais, cegos, surdos e mudos, pois na ação ou na omissão, ninguém ouve, ninguém vê, ninguém fala...

Irene Berlin